Esses moços... pobres moços



A moça aí de cima é a cantora espanhola Alaska que numa campanha contra as tradições de seu país posou nua, com três “banderillas” cravadas nas costas, contra a tauromaquia, sobre o lema: “A verdade desnudada: A Tauromaquia é cruel”. A campanha é uma iniciativa das associações AnimaNaturalis espanhola e PETA britânica.
Enquanto isto, na Câmara Municipal de Cataguases, alguns moços, votaram contra uma lei que proibia na cidade o uso de animais em espetáculos que os tivessem como atrativo.
Na apresentação da campanha a cantora Alaska disse: “Deveria se por umas “banderillas” nas costas dos que dizem que o touro não sofre”. Eu, meio que a parafraseando, gostaria de afirmar aos nossos pobres moços, que adoraria vê-los corcoveando em algum rodeio, com suas genitálias presas por um torniquete de cintas. Ou quem sabe saltando sob chicotadas por um arco de fogo em algum cirquinho mequetrefe.

Peixotamente

*Emerson Teixeira

Exatamente assim como quis Francisco Peixoto, perfeitamente assim como a recebemos na concepção dele, Cataguases esta cidade para nós “amor perfeito” (mesmo sabendo realisticamente que nada é perfeito) acabou por se consolidar como núcleo cultural desde que lá pelos seus anos vinte, se envolveu numa aventura cinematográfica e trouxe a reboque a vanguarda literária.
Sabemos a quem creditar essa realização. Exatamente a ele: Francisco Peixoto. Seu nome aparece como ponta de lança desse movimento, pois atrás dele ficou uma semente germinada, a semente do futuro (hoje nem tão presente). Aqui caberia uma pergunta: O que seria de Cataguases, o que seria de nós gente de Cataguases, o que seria em última instância Cataguases em nós se não tivesse existido um Francisco Peixoto? Constatação: uma pergunta pode gerar muitas perguntas.
Isto posto concluo: Francisco fez tudo o que se poderia esperar de alguém como Francisco Peixoto, homem sintonizado com seu tempo e com seu povo. Resta perguntar o que não fez.
O que não fez foi se negar a seu papel no mecenato e o que daí veio em acréscimo. Veio a poesia, oconto, veio a epistografia, a crítica e a tradução. E ainda sobrou tempo para o magistério. Aonde? No Colégio Cataguases. Por que será que hoje tem outro nome? Numa crônica singela, que publicou já sexagenário, acho que no jornal Cataguases, dizia que amava a cidade como a conhecera, evocando nomes de pessoas e ruas desaparecidas. “Destemperado e lírico no meu jeito de ser”. Mas está em Meia Pataca, o primeiro livro que publicou, a exata noção de seu afeto pela cidade que não desejava ver crescer: “Imagino o que seria de você hoje, Cataguases, se tivesse mais ouro naquele corguinho”. Não tinha, mas a cidade assim mesmo cresceu. E eu imagino é o que seria de Cataguases se não tivesse existido Francisco Inácio Peixoto.

*Emerson Teixeira Cardoso (Cataguases - MG)

Desencontros

Faz um bom tempo, bota tempo nisto, eu andava pela feira de artesanato na praça da Republica em São Paulo, quando ouvi uma voz brotando de um carro estacionado quase na esquina da Vieira de Carvalho, cantava um coco diferente. Eu pensei: Que diabo de Jackson sem pandeiro é este. Parei, ouvi e gostei. Minha timidez não permitiu sequer perguntar ao dono do carro de quem era a voz. Aquela voz ficou retinindo no meu ouvido por algum tempo.
Nesta época vivíamos, eu e meus amigos, principalmente, Zé Tarcísio Lima – ainda rasgando taioba lá em Viçosa e o Vanderlei Pequeno – tocando viola em Cataguases, cultuando a música latino-americana, bem no meio das nossas ditaduras. Para nós, ouvir as músicas de Victor Jara, Atahualpa, Violeta Parra, a voz de Mercedes Sosa, as flautas andino-ameríndias era enxergar a liberdade democrática pelas frestas. Vivíamos atentos a toda a música de raiz que aparecia nos circuitos alternativos, fôramos criados embalados pela bossa nova e o velho e bom rock. Éramos fãs das letras de Chico Buarque e Paulo César Pinheiro. Mas o que buscávamos era a nossa identidade cultural, acreditávamos em Darci Ribeiro dizendo que éramos o maior povo romano do planeta. Eu particularmente acredito que a humanidade só será salva pela nossa América Mestiça – cadinho de todas as raças.
Um dia a namorada me chamou para ver um show numa lona de circo no meio da Praça Roosevelt, esta, era para mim, a praça mais louca que conhecera até ali. Atrás da belíssima igreja da Consolação, sobre as pistas de uma via expressa havia um supermercado e sobre o supermercado ficava a praça. No pedaço de solo firme que sobrara ficava um cineminha muito bacana o Bijou. Naquilo que era a última laje da praça ficava o circo. Entrei no cirquinho meio sem vontade estava mais a fim de um “chopis” lá no Redondo. Começou a música, fiquei boquiaberto. Era a voz lá da Republica cantando. Após ouvir “Estampas Eucalol” e “Curva do rio” fiquei fã do cantor. Na saída ainda comprei um vinil intitulado “O que qui tu tem canário” que hoje chia numa vitrola lá em Portugal roubado que me foi pelo sacana do Edgar, paneleiro de uma figa que se dizia do Porto, coisa que não acredito. O Cunha dono de um bar lá no Bixiga, fazia uma Tripa do Porto supimpa, me dizia que o gajo só podia ser lisboeta. Nada a ver com o Idigar, este é Sena, irmão de Xisto e meu mano desde os tempos de primeira comunhão lá na igrejinha do Rosário.
Fui ver o cantor novamente, lá no Cultura Artística noutro momento, com o Elomar – deste não perdia um – Geraldim Azevedo e Vital Farias , o show atrasou-se, porque Vital por medo de avião viera de Salvador de ônibus. De lá pra cá foi só desencontros, inclusive este último. O cantor apareceu lá em Piacatuba e eu não fui. Fui apeado da possibilidade ao não encontrar nem carona, nem lotação, já que era fim de mês a grana não dava para empoleirar no táxi do Joaquim e rachar para lá. Já disse uma vez que não sou um homem estainbequiano, ainda sou um ser como fui concebido pelos meus pais e abençoado por Deus, tenho ainda, como membros inferiores, duas pernas e não um automóvel. Desde São Paulo nunca mais vi um show de Xangai de quem continuo fã, ouvindo suas músicas, além de continuar xingando e rogando praga no larápio português.

Mulheres de passado e Homens de futuro

*Cunha de Leiradella

Andréa era recepcionista, mas não gostava de pessoas. Ana Carolina era corretora, mas não gostava de vendas. André era médico, mas não gostava de doenças. Eduardo era jornalista, mas não gostava de notícias. Moravam em Belo Horizonte. Andréa e Ana Carolina no mesmo bairro, e André e Eduardo em bairros diferentes. Conheceram-se na Casa dos Contos, numa sexta-feira de noite. Andréa comendo batata frita com ketchup, Ana Carolina, frango à passarinho, André, peixe ao molho branco, e Eduardo, salaminho e azeitonas. Sentaram na mesma mesa por acaso. Andréa vinda do hotel, Ana Carolina, da companhia de seguros, André, do hospital, e Eduardo, sem destino.

O restaurante estava cheio. Andréa chegou primeiro e Ana Carolina não tinha onde sentar. André jurou que já as conhecia e Eduardo esbarrou na mesa, sem querer. Andréa sorriu e disse que era a força do destino, e arrumou mais um lugar. Gostaram de se encontrar e fizeram confidências. Andréa, nascida em junho, em Santa Lúcia, queria ser cantora. Ana Carolina, nascida em setembro, na Savassi, queria ser atriz. André, nascido em maio, em Itabira, queria ser violonista. Eduardo, nascido em novembro, em Portugal, não sabia.

Falaram do passado e do futuro, e resolveram prolongar aquele encontro. Andréa leu as mãos e fez horóscopos, e Ana Carolina quis saber onde moravam. André falou da fazenda, em Itabira, e Eduardo escutou, silencioso. Andréa gostava de cavalos e de matas, e Ana Carolina morava só e não tinha namorado. André sorriu e achou ótimo, e Eduardo ficou triste e pediu vinho.

Andréa brindou a Câncer e a Gêmeos, e ao seu perfeito entendimento, e lamentou o medo que Libra sempre tem do imperioso e angustiado Escorpião. Ana Carolina brindou aos homens de futuro e afirmou, seriamente, que os opostos sempre acabando atraídos. André sorriu e achou ótimo, e Eduardo tentou adivinhar a cor dos sutiãs.

Terminaram a noite com duas garrafas de vinho português. Andréa cantou Travessia e André fez do tampo da mesa um violão. Ana Carolina lamentou a miséria dos sem-terra e a violência dos pivetes, e foi ao banheiro vomitar. Eduardo rebateu o vinho com conhaque e pensou nos seios de Andréa nus, caídos num lençol.

Festejaram o fim do ano em Cabo Frio e passaram um fim de semana na fazenda de André, em Itabira. Voltaram a Belo Horizonte bem queimados e Andréa casou com André no mês de maio. Eduardo embebedou-se na Casa dos Contos e não foi ao casamento e morreu atropelado na Avenida Afonso Pena nessa noite, e Ana Carolina desenvolveu dons mediúnicos e apaixonou-se por um colega de trabalho, aquariano e malcasado.

Naquele ano, o Brasil foi campeão de Fórmula 1, sem disputar a última das corridas, e Mikhail Gorbachev publicou Perestroika, sem prever a derrocada.

*Cunha de Leiradella (Póvoa de Lanhoso Portugal)

Anjo do rio

Pelas águas do rio desliza o barqueiro , figura franciscana no despojamento e na atitude, percorre diuturnamente as barrancas do velho Pomba recolhendo restos que os “civilizados” insistente e levianamente descarregam nas águas do rio, a podre e pobre raça humana se revela ali em toda a sua inconseqüência, em um negativismo hegeliano, onde se vê claramente o caráter próprio da antítese, a contradição de destruir a fonte fundamental da vida; a água. Mas Gabriel, nosso barqueiro, nos contamina com seu enternecimento pelo rio, num brando amor por este ente cantado por poetas, retinado por pintores e fotógrafos; ele se toma de terno arrepio quando nos fala do Pomba. De forma solitária e silenciosa nestes últimos anos vem lutando pela preservação de seu grande e leal amigo o rio, a paixão deste pelo rio é imensa. Recolhe montanhas de plásticos, latas, colchões, moveis, madeiras de todas as formas e tamanhos ali atirados pelos “racionais animais” da civilização do descarte.
Messianicamente ele vai conduzindo sua vida numa interação apaixonante com o Pomba, um Quixote em pleno terceiro milênio, acredita piamente no rio e nos animais que vivem nas suas águas e suas barrancas, carinhosamente conversa com seus companheiros que habitam este manancial de vida. A cidade trata aos dois com a mais absoluta indiferença, mas ele não se importa , para ele o que importa é o rio, sentimos nele a temperança, a sensatez, o conhecimento justo das coisas, a indignação sem dogmas dos prudentes enfim a sabedoria que só os especiais alcançam. Gabriel é o anjo que guarda o nosso, mais dele do que nosso, Rio Pomba.

Ainda pela Palestina

Ainda me lembro da revista Manchete. Na nossa infância e adolescência, ela não nos deixava esquecer da guerra dos seis dias, do Osvaldo Aranha – presidiu a sessão da ONU na qual foi criado dois estados na Palestina.
Nunca nem se quer insinuaram que só metade da resolução fora cumprida. Pendurada nas bancas, vistosa e colorida, a revista dos Bloch, quando não estava falando orgulhosamente dos feitos dos soldados de Israel, descendo o pau nos criminosos massacres nazistas, estava desavergonhadamente puxando o saco de nossos ditadores. Nunca nos disseram que a Faixa de Gaza ocupa uma área menor que Cataguases. Enquanto aqui somos 70 mil habitantes, lá estão espremidos 1,4 milhão de habitantes, é um dos locais mais densamente povoados do planeta. Qualquer um atravessa de fusca o município de Cataguases em qualquer direção em minutos, imaginem constantemente uma frota de aviões e helicópteros decolando de Piacatuba em Leopoldina para nos bombardear. O que aconteceu em Gaza no fim do mandato do Bush Jr. me enojou. Somos solidários ao povo palestino em sua luta pela retomada de suas casas, suas terras, suas aldeias e fundamentalmente sua pátria.