Esta banda russa estará se apresentando em Cataguases dia 26/04/2012 abrindo sua turnê pela América do Sul
A miudeza da miúda - A serviço de qual verdade está nossa mídia?
Demóstenes e o” duplipensar” da grande imprensa
8/4/2012 9:35, Por Gilson Caroni Filho - do Rio de Janeiro
Antes 'queridinho' do jornalismo inqualificável, Demóstenes Torres agora dá trabalho aos colunistas. Qualquer pessoa de bom senso, que tenha lido os articulistas da grande imprensa, desde o surgimento dos escândalos envolvendo o senador Demóstenes Torres, concluirá facilmente que os trabalhadores das oficinas de consenso, aturdidos com o que lhes parece um ponto fora da curva, uma desconstrução dispendiosa e extemporânea, são como aqueles motoristas que imaginam poder dirigir um veículo com os olhos presos ao retrovisor. Não enxergam a clareza da realidade. O círculo do jornalismo de encomenda, minúsculo e cego, está só, murado no seu isolamento.
A pedagogia dos fatos, inexorável nas suas evidências, parece passar ao largo das redações. O que se faz ali não é jornalismo, mas um simulacro de literatura de antecipação marcada por profundo pessimismo e cenários de devastação. Talvez George Orwell e seu clássico 1984 expliquem melhor o suporte narrativo da fábula que não deixa de trazer uma concepção de história autoritária e retrógada.
As delicadas relações do senador goiano com o bicheiro Carlinhos Cachoeira – e a possibilidade de que o governador tucano Marconi Perillo venha a ser o próximo alvo – pôs em operação o “duplipensar” orwelliano que, desde a posse de Lula, está incorporado aos manuais de redação. Como o objetivo é afastar o ex-varão de Plutarco de cena, para prosseguir atacando o governo da presidente Dilma, os “cães de guarda” cumprem a tarefa com afinco.
No reduzido vocabulário da “Novilíngua”, o “duplipensamento” é assim explicado por um dos personagens de 1984: “capacidade de manter simultaneamente duas crenças opostas, acreditado igualmente em ambas(…). Saber que está brincando com a realidade mas, mediante o exercício de tal raciocínio, convencer a si próprio, que não está violentando a realidade. O processo deve ser consciente, pois do contrário não funcionará com a previsão necessária: mas, ao mesmo tempo, deve ser inconsciente para não produzir sensação de falsidade e culpa”. Com esse trecho, cremos ter decifrado os sorrisos de Merval Pereira, Dora Kramer, Augusto Nunes, Eliane Catanhede, entre outros, quando confrontados com a palavra “ética”.
Para eternizar a ordem que defendem com unhas e dentes o cenário político, submetido ao pensamento único, passa por processos de ocultamento e simplificação, visando a eliminar todas as possibilidades de pensar dos membros do Partido Imprensa.
Outra implicação do “duplipensar” da mídia corporativa é a constante alteração do passado. O registro – e consequentemente a memória – dos fatos ocorridos devem ser refeitos sempre, a fim de adaptarem-se ao presente. O trabalho de um “bom” editorialista é reescrever a visão dos veículos em que trabalha para que não contradiga a realidade de hoje. Assim, por exemplo, Folha, Globo e Estadão podem condenar o golpe de 1964, mesmo o tendo apoiado ostensivamente. Se um livro denuncia um líder político como Serra e outras figuras no seu entorno, a solução é simples: Ele nunca foi escrito e, portanto, jamais será resenhado, sendo passível de punição severa quem não entender como funcionam as “leis naturais”.
Além da eliminação do passado como elemento de desarmonia com o presente e como instrumento de verificação das afirmações do Partido Imprensa, este recorre a outros meios, bem mais convencionais, para moldar a consciência de seus filiados e simpatizantes (leitores e telespectadores): educação permanente assegurada pela propriedade cruzada dos meios de comunicação, atividade coletiva sem intervalos, o que pode ser obtido mediante ampla oferta de blogs, sites, jornais e redes que digam sempre o mais do mesmo . Para concluir, vem a valorização do poder político como fim, não como meio.
O incômodo Demóstenes deve, após a sequência de denúncias, ter um diagnóstico clínico que despolitize o seu desvio. Merece, pelos serviços prestados, um roteiro que conte a tragédia do Catão caído, até que, finalmente, desapareça na lata de lixo reservada aos que fugiram da trama original. Assim agem os bons autores ao tomar como ponto de partida uma realidade familiar e palpável e transformá-la em espetáculo perecível. Em tempo: o DEM, assim como o PFL, nunca contou com o apoio das corporações midiáticas por um simples motivo: nunca existiu.
Vejam como operam nossos talentosos colunistas. Orwell ficaria tão contente que, com certeza, lhes arrumaria um lugar no Ministério da Verdade.
“Em um mês, o senador Demóstenes Torres passou de acima de qualquer suspeita para abaixo de qualquer certeza, num episódio que desafia os romances policiais mais surpreendentes. Além da atuação implacável contra a corrupção, ele tinha a cara, vestia o figurino e se comportava como um incorruptível homem de bem – e talvez seja mesmo sócio da holding criminosa de Cachoeira (Nélson Motta, 6/04/2012, o Globo)
“Demóstenes Torres não seria beneficiado pelo “vício insanável da amizade” – expressão usada pelo notório Edmar Moreira (o deputado do “castelo”) para definir o principal obstáculo a punições -, pois os amigos que fez ali estão entre as exceções e os demais confirmam a regra. Por terem sido alvos do senador na face clara de sua vida agora descoberta dupla, podem querer mostrar-se ao público em brios. O problema, porém, é a falta de credibilidade” (Dora Kramer, 6/04/2012, Estado de São Paulo)
“Esse personagem que o senador criou para si próprio não era uma mentira de Demóstenes, ele incorporou esse personagem e acreditava nele. Podia acusar com veemência seus colegas senadores apanhados em desvios, como Renan Calheiros, enquanto mantinha o relacionamento com o bicheiro Carlinhos Cachoeira porque, como todo psicopata, não misturava as personalidades “(Merval Pereira, reproduzindo argumento do psicanalista Joel Birman, 30/03/2012, O Globo)
Admiráveis funcionários de um jornalismo inqualificável.
Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior e colaborador do Correio do Brasil e do Jornal do Brasil.
Primeiro de abril de 1964
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| Grupo Guido Marlieré Acervo do Arquivo Público Mineiro |
Na década de sessenta, no final do milênio, meu mundo circunscrevia-se ao Bairro Haideé, a Vila Domingos Lopes limitados pelo ribeirão Meia Pataca, a Estação Ferroviária e o Campinho dos Menezes. Para fora destas fronteiras era a imaginação e a fantasia. Neste universo restrito, onde o peso da vivência familiar dividia-se com frequentar a igrejinha da Vila e o Grupo Escolar Guido Marlieré. Neste, só chamávamos de Guido, fiz meu curso primário. Neste ambiente cresci até a metade da década, em 1966 fui para o Colégio Cataguases cursar o ginasial e ver o mundo e suas possibilidades se escancararem diante de meus olhos.
Nesta primeira metade dos sessentas, minha formação se deu dentro da rigidez dos princípios da igreja católica apostólica santariana. Isto mesmo, todo mundo frequentava a igreja, era católico, mas se pegava mesmo era com seu santo de devoção. Menino ainda, eu achava esquisito ser católico romano se eu era mineiro, além do mais não foram os romanos que crucificaram Jesus? Eu vivia uma espécie de poligamia devotiva, cada dia me fiava com um santo diferente. Tinha medo de olhar muito tempo para as imagens das santas, eram muito bonitas. Poderiam provocar alguma coisa esquisita, como olhar o assanhamento de algumas amigas já provocava. Respeitosamente abaixava cabeça e rachava fora. Na escola a rigidez era a mesma, sempre andando em filas e em silêncio, só nos recreios e que a meninada podia soltar-se um pouco. Agora liberar tudo o que ficara represado só do lado de fora da escola ao fim das aulas. Ali se resolvia no tapa as brigas encomendadas lá dentro, em meio à algazarra que rompia aquele silêncio forçado da escola.
Vivia eu dentro deste caldo de cultura reprimido por valores morais católicos, preconceitos dos mais variados e a franciscana pobreza operária de meu bairro. Estranhava o silêncio de todos com os bígamos que saiam diariamente de suas casas lá das partes nobres da cidade para frequentar suas amantes que também viviam por ali. Aquilo não era pecado? Não era imoral? Não entendia essas diferenças. Para além do meu mundo havia um mundo bem diferente.
Aqui e ali, pela boca do Zé, primo mais velho que viera lá de Itaobim morar conosco, um ou outro lampejo do que ocorria no mundo lá fora. A bossa nova, Miss Universo, o tal de rock and rol, o Sputnik. Lembro claramente dele irrompendo pela sala: “Tia! Tia! Mataram o John Kennedy.” Eu não fazia a menor ideia de quem era esse JK. JK famoso para mim era o lá de Diamantina, o presidente que tinha criado Brasília a nova capital. Fascinava-me em vê-lo, enquanto minha mãe cuidava do almoço, contando detalhes do filme que tinha visto no cinema. Já tinham me levado algumas vezes ao cinema, não me lembro do primeiro filme que eu vi, mas lembro da música do Canal Cem quando ia mostrar futebol: “... Tchan ran tchan tchan ran... Que bonito é...” Nesta hora o cinema parecia a geral do Maracanã. Meu pai era botafoguense doente e fã do Grande Otelo. Cinema, futebol e religião era assunto constante na minha casa. Não havia televisão, pelo menos em minha casa, quem imperava absoluto era o rádio. Lembro-me do Zé torcendo pelo seu Vasco ou meu pai pelo Botafogo, xingando, vibrando ou comemorando diante de um rádio grandão que ficava em cima de uma cristaleira. Quando, no mesmo dia, jogavam Botafogo e Vasco o rádio era só do meu pai. O Zé se mandava para a casa de algum amigo vascaíno. Durante estas transmissões minha mãe ralhava o tempo todo com medo deles quebrarem as louças de sua cristaleira. Eu me empolgava e ia para o quintal brincar com um capotão. Descobri cedo que não tinha a menor habilidade como futebolista.
Nesse clima em que eu vivia, sai numa manhã de casa para o Guido. Durante a caminhada a cidade estava meio esquisita, tudo parado, ruas vazias, parecia sexta feira santa. Mal entramos em sala a professora séria nos impôs o silêncio. Toda a escola estava muda, num silêncio de igreja vazia. Ficamos sabendo que uma revolução estava em andamento. As conversas eram estranhas para mim, evitar o comunismo, preservação da família, da moral, dos bons costumes e patati patatá. Não entendia bulhufas do que falavam. Disse que ao sairmos, deveríamos ir para casa rapidamente, ficar nas ruas era perigoso. Enfiou o maior medo em minha cabeça. Após falar que as aulas estariam suspensas até segunda ordem, dispensou a todos. Descemos as escadas do Guido numa gritaria danada, um monte de dias sem aula, que maravilha. Em casa a conversa que girava era que tinham derrubado o Jango, este, estava levando o Brasil para o comunismo. Dia seguinte fomos chamados de volta às aulas, frustração geral.
À medida que fui crescendo, rompi as fronteiras em que vivia, passei a conhecer outras faces da cidade. Uma cidade de belas fachadas modernistas, ativos escritores renovando a linguagem, contrastava com uma população barroquinha por fora e por dentro. Fui compreendendo que, naquele dia lá no Guido, mentiram descaradamente para mim. E como era difícil achar a verdade no meio de tudo aquilo. Aqueles papos de que comunistas comiam criancinhas, mas e a pedofilia rolava solta? Tecelãs, nos seus quatorzes anos, eram assediadas por seus mestres e contramestres tudo na maior surdina. Aquela conversa de preservar a família por pseudomoralistas, que com suas esposas confessavam e comungavam com o Padre Solindo na Santa Rita, entre uma missa e outra frequentavam suas amantes nas barbas do Padre Antônio no Rosário.
Naquele dia falaram em democracia mas estavam nos conduzindo a uma ditadura, que levou a abusos de toda a sorte. Adulto, vi pessoas constrangidas ao sair do trabalho, eu também o fui por policiais em suas blitz. Éramos acusados de vadiagem se não tivéssemos uma carteira profissional assinada. Estar desempregado era crime. Nestas ocasiões, vi mulheres sendo insidiosa e cretinamente apalpadas em revistas policiais. Todos com a raiva entalada na garganta e a boca seca pelo medo.
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| Foto de Moana Mayall |
Quem eram os covardes?
São eles os fantasmas a atormentar-nos até os dias de hoje. Deixaram-nos medos, dores, mortos, frustrações, desaparecidos, e um rastro enorme de mentiras.
Aquele foi o pior e o maior primeiro de abril que me pregaram até hoje.
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