Relato de uma viagem em que não fomos ver o escrete brasileiro jogar

                      

             Manhã de quarta feira, dia dezessete de outubro, do ano de 2007, estamos na esquina do Rio Pomba com o Meia Pataca. Cataguases escalda nossas têmporas de tanto calor. Enquanto aguardamos o Vanderlei Pequeno, o Emerson Teixeira, para conter a ansiedade, gorgoleja feito um sabiá, uma "água que Passarim não bebe". Pequeno aparece e embarcamos rumo ao Rio de Janeiro, para assistir, no auditório do Forte Copacabana, à leitura do texto de Zeca Junqueira, O Rei Lagarto, Um Tributo a Jim Morrison, com encenação prevista para estrear em fevereiro, naquela cidade. Já dentro do ônibus, percebemos que o nosso programa estava na Agenda do Jornal do Brasil.
Transcrevo: "O Rei Lagarto - Tributo a Jim Morrison, de Zeca Junqueira - Adaptação de Luiz Carlos Maciel - Dia 17 de outubro às 20horas no Forte Copacabana - Entrada: Uma lata de leite em pó".
No caminho, em poucos minutos, lemos o JB e comentamos: o diário da condessa acabou, não passa de um punhado de folhas, que mal daria para fazer o caderno B noutros tempos. Assusto-me, ao deparar com uma notícia: um maluco enfiou um tiro na própria cabeça, dentro de um cinema em Recife, assistindo ao Tropa de Elite. Uma profanação! Cinema para nós é um lugar sagrado. Nele cultuávamos nossos ícones e amávamos nossas deusas.     Estávamos ansiosos, para ver o que o nosso conterrâneo Zeca aprontara lá no Rio.
Desembarcamos na Novo Rio e no meio do nosso caminho havia uma vaca, uma vaca preguiçosamente esparramada no meio da rodoviária. Pegamos o cento e vinte e seis rumo a Copacabana; encho a paciência dos meus amigos de viagem, relembrando meus tempos de Rio de Janeiro. Não tem jeito, é só eu por os pés na velha capital, que de uma brasa dormida reacende a vulcânica paixão pela cidade. Pequeno na sua inquietude, com aquele olhar sempre atento, já nos chamara atenção à "faxina" que fizeram na cidade ao eliminar centenas de outdoors. No entanto, dá destaque a um “sobrevivente” que faz referência ao Dia dos Médicos, instalado logo perto de uma loja de artigos “exutéricos”, toda em vermelho e preto; o anúncio também nos aparece nas mesmas cores e é escabroso, coisa de encantar o Chifrudo Encarnado. Isto nos remete para este clima de violência que a cidade vive já há algum tempo e o tal filme, que levou o pernambucano ao suicídio, retro alimenta.
Chegamos ao ponto final, na Princesinha do Mar, o cheiro do mar nos revigora. Ao virarmos a esquina rumo ao Forte, outra vaca no meio do nosso caminho. De tênis, ela nos sugere que está a caminho da praia, para uma caminhada ou uma corridinha, mas notei que o seu bovino abdômen estava meio caídaço. Ressabiados entramos no Forte Copacabana; simpáticos guardas nos indicam o itinerário do auditório. Andamos junto a uma mureta, deparamos com vários canhões antigos; breve parada para olharmos a praia e o mar: é linda a visão. Chegamos. Eu não viajo na história do forte, só penso no mar e no que verei mais tarde.
Quem nos recebe afetuoso é o Júlio Braga, o Diretor do evento; isto nos deixa mais a vontade dentro de uma caserna, já que temos razões históricas para não gostar destes locais. Júlio nos apresenta o Carlos Loffer, o homem que iria viver Jim Morrison, naquela noite de leitura da peça: "Estes são os amigos do Zeca!" Fico sabendo ali que ele – o Loffer - é neto do genial Oscarito. A correria é grande para acertar som, luz, estas coisas. Mais uma volta pela cercanias e encontramos com o nosso amigo. O nosso poeta, Zeca Junqueira, está excitadíssimo. Partimos para a primeira rodada de cervejas no primeiro quiosque da praia.
-Nós nunca estivemos juntos no Rio de Janeiro, comenta Zeca, eu só me lembro de ter encontrado o Zé Antônio certa vez na rodoviária, embarcando para Cataguases pela Citran. Bebamos a isto! Também por estarmos juntos neste dia de poesia.
Vamos entrar e sair do Forte várias vezes. Não tem cerveja dentro da caserna. Alguém canta: “João bebeu toda cachaça da cidade...” No entra e sai, passamos várias vezes por outra vaca, protegida da violência nos jardins internos do Forte. Pequeno descobre que a vaca é Angolana. Resolvemos dar uma olhada no Drummond sentado no calçadão da praia. Outra vaca no caminho, agora sentada ao lado do poeta a ler um livro. Para mim, é uma profana vaca mística lendo Carlos Zéfiro no interior de algum livro sagrado. Olho para o poeta em bronze e penso: "É Carlos! No caminho havia uma vaca... tinha uma vaca no caminho... Prefiro as pedras, meu poeta. As pedras"!
Começo a entrar no clima poético que sinto avizinhar-se de nós. A noite nos abençoa com suas primeiras estrelas, sinto que Jim ainda está preso no corpo de bronze do Drummond. Emerson pede sua calibrina, todos convivem e compartilham a mesma ansiedade. Digo ao Zeca: "A poesia só vai terminar quando o velho canhão lá no Forte disparar sozinho." Com Ricardinho (filho do Zeca), Pequeno e Emerson saem para uma foto ao lado do Drummond... e da vaca. Só aí fico sabendo que a exposição pecuária se trata de uma tal Cow Parade, um evento artístico com autores de diversos locais. Acho que estão, sem querer fazer trocadilho, é avacalhando com a arte. Caminhamos de volta ao forte. Zeca dialoga coisas “incompreensíveis para as massas” com um soturno tocador de rabeca, quase à entrada do Forte.
O auditório tem um clima suave provocado pelo incenso. Jim Morrison, como naquele poema de Maiakóvski à Iessienin, sai do bronze do Carlos Drumond e “entremeado de estrelas” voa sobre o mar pairando depois sobre nossas cabeças. Começa a leitura do texto. “... Poesia onde está seu banquete?...” Carlos Loffer sobe ao palco. Soam os primeiros acordes da música dos ótimos músicos que tiram as arestas do bom e velho rock. O momento exige uma música mais espiritual. E tome poesia! Carlos agora não é Loffer, nem o Drummond lá da praia, é outro poeta, o Lagarto Morrison. Bebam poesia! O forte é tomado pelas notas de Light my fire. O tom vai subindo a platéia sendo seduzida, a pulsação cardíaca de todos segue o ritmo. Vejo Juliana, filha do Zeca, cantando a “plenos pulmões”. De repente - booom! O canhão de luz explodiu sobre nossas cabeças. Fire... fire... fire... Light my fire. Na parada total não programada, no silêncio quase absoluto de nossas mentes, escutam-se vários tun tuns.. tun tuns... de incendiados corações. Rapidamente o ritmo retorna. Comam poesia! Fim do espetáculo, uma verdadeira festa poético-musical. Todos estão a mil, arrepio-me, minto a mim mesmo achando que é a brisa do mar. Nas mãos de Márcia, esposa do Zeca, um copo d'água tremula feito bandeira ao vento. Abraço com imensa alegria o amigo Zeca Junqueira.
No ponto final do cento e vinte seis, enquanto esperamos o ônibus que nos levaria de volta até a rodoviária, vejo o Morrison passar correndo, talvez no encalço de outra “Entidade”, era o Carlos Loffer na corrente jornada dupla das artes do Rio de Janeiro. Todos estamos ainda impregnados do que acabamos de presenciar, embriagados.
Já de volta a Cataguases percebo que havia chovido. Caminho com o Pequeno pela madrugada molhada até o início da Avenida do Lava Pés, estamos integrado àquela umidade que contrastava com a secura da manhã anterior, quando partimos. Ele vai pela avenida e eu tomo o rumo da Vila numa vontade de chutar poças d'água, como nos meus tempos de moleque. Na cabeça ressoa When the music's over. Sinto que não vai mais parar. Estou cansado, mas extremamente feliz. Lembro-me de uma afirmação do poeta Alexei Bueno: "Ao encontrar-se com qualquer obra de arte, seja um poema, seja uma música, você sai ampliado, acima de sua existência diurna, cotidiana, banal." A poesia do Zeca amalgamou-se à música dos Doors e nos fez mergulhar numa fantástica viagem.
Muito obrigado “továrich” Zeca Junqueira.

O boa pinta


Reencontrando-me com um velho amigo, não nos víamos há muito tempo. Entabulamos uma conversa sobre velhos e novos tempos.
Ele, mais velho do que eu, uns cinco a dez anos, fora na minha adolescência modelo de sucesso entre as garotas. Embora houvesse entre nós diferenças acentuadas: ele, corpo forte. Eu magrelo. Ele cara de bunda de anjo. Eu forrado de espinhas. Ele a lá James Dean. Eu coroinha de igreja. Isto explicita meu fracasso e o sucesso dele.
Zé da Pinta, como era conhecido, pôs-se a falar sobre as relações entre homens e mulheres.
Don Juan de porta de fábrica, adorava uma aventura com uma normalista, daquelas de saia azul marinho plissadas, (alguém ainda veste uma saia destas?) Quando não estava garimpando em troca de turnos das industrias têxteis, era visto na praça da matriz, perturbando a castiça juventude das meninas de boas famílias, sobre os olhares aflitos da madre superiora e suas carmelitas. Dizia que o seu sucesso entre as mulheres, derivava da dosagem exata do machismo mineiro com a cafajestice carioca , temperada com a indolência de soteropolitano.
Hoje, ele afirma convicto: São mais complexas as relações amorosas e sexuais que pontuam nossa vida moderna. Antes nunca se perguntava a uma mulher sua idade. Hoje não se pergunta pela idade, pelo gênero e pelo estado civil. Você pode ficar desconcertado com as variáveis que se apresentarão.
Já, na idade que me encontro, sou apenas um observador. Um saudoso atento. A Pinta já não faz sucesso, enrugou e amoleceu tanto quanto seu masculino. Eu e ela perdemos a virilidade, me recuso a me apetrechar de uma prótese ou, desses produtos químicos que fazem tanto sucesso por aí. Já mandaram uns quatro amigos, via parada cardíaca, para o inferno. A coisa hoje também está banal, acabaram-se as romarias à “Santa Helena”. Qualquer esquina tem alguém se oferecendo por qualquer coisa, para qualquer coisa.
Honestamente, a única coisa que ainda pratico é aquela regra que aprendi com o poeta Ascênsio Ferreira: “Hora de comer, comer. Hora de dormir, dormir. Hora de trabalhar, pernas para o ar que ninguém é de ferro”.
Julho/2004

Pury sete e meio

Final dos setentas ou início dos oitentas, não sei bem o ano. Jorge Napoleão e Pury capitaneavam o Studio2, época, para mim, marcante.
Jorge Napoleão é o autor de uma célebre fotografia do Chico Peixoto. Copiada e recopiada em vários suportes por muita gente. Vestido num terno de linho branco, bengala na mão, o escritor aparece andando por uma rua de Cataguases. É de uma chapliniana poesia.
Do Pury guardo na memória até hoje, uma exposição fotográfica, organizada no Studio2, o espaço funcionava num casarão já demolido, naquela rua que sai da praça Rui Barbosa, passa pelo largo do Rosário ou pracinha do dr Lídio, atravessa o Meia Pataca e termina lá na subida do colégio. Ufa! Que rua cumprida hem? Sei que ela tem vários nomes no curto trajeto e algumas alcunhas populares. O colégio chama-se nada mais nada menos que: Francisco Inácio Peixoto.
Da exposição, lembro-me de uma serie de fotos em branco e preto, onde viam se várias galinhas e alguns perus. Perus era para nós algo inusitado, só os conhecíamos lá das telas do Cine Machado ou do Cine Edgard, naqueles filmes americanos em que alguma família comemorava o tal dia de Ação de Graças, além é claro daquela máxima popular que diz: “Peru é que morre de véspera...” mais aí, já é natal e nós filhos de tecelões devorávamos na ceia natalina era uma suculenta galinha caipira bem assada com muita farofa dentro.
As galinhas, estas sim, faziam parte do nosso dia a dia, uma galinha ao molho pardo, com um quiabo então era, era não, é uma delícia. As mamães, no pós-parto degustando uma canja, que lá no campo do flamenguinho virava aquele refrão: “... é canja... é canja... é canja de galinha... arruma outro time pra jogar com a nossa linha...” Já certas moçoilas mais afoitas e afeitas a uma noitada, logo, logo, de forma até maledicentes eram adjetivadas como se galinhas fossem. Nossos dons juans que nunca resistiram a nenhum rabo de saia, até hoje são conhecidos como os “galinhas”.
O Pury como se vê está na galinhagem há muito tempo, digo, na fotografia há muito tempo. Andou se metendo com pintura, escultura, mas a meu ver o seu universo são os acetatos. Sempre que nos encontramos ele está com um roteiro novo para um curta metragem, com os polegares em angulo reto com os indicadores enquadra um rosto, uma paisagem e leva-nos pela abstração de suas idéias ainda inconclusas. Em certas ocasiões senta (ou assenta?) conosco no buteco da rua do sobe-e-desce, charuto em punho parecendo um daqueles cineastas roliudianos, empolgado com um média metragem, quase nos convence que quem está ali é Antonioni em pessoa. Muitos começam a sair de fininho quando ele todo empolgado verbaliza um fantástico roteiro de um longa metragem.
Vejo suas incursões pela pintura e escultura, como os desenhos de Akira Kurosawa, na busca de detalhamento de seus roteiros. Inquieto se meteu à terapeuta em certos malucódromos, os roteiros desta fase deixariam Woody Allen de queixo caído e Bergmam babando de inveja.
Ele é de certa forma o herdeiro de Humberto Mauro e da turma do O Anunciador. O sete e meio lá de cima é uma interconexão entre Pury, Fellini e o único horário do único cinema de Cataguases que ainda funciona. Até quando? Nem o dragão da maldade nem o santo guerreiro sabem. Mas se bobear uma certa Universal, que não é a Pictures, assume o espaço.