O filme de Samuel Beckett


O dramaturgo irlandês Samuel Beckett,  autor do clássico  Esperando Godot, fez apenas uma incursão cinematográfica em sua vida: Film, em 1965.   Foi escrito e filmado em apenas quatro dias. A direção é de Alan Schneider, que explicou que o roteiro seguia a mesma direção das peças de Beckett: pouca produção, notas explicatórias, abordagem filosófica. Não há diálogo – o filme é mudo. A única exceção é um shhh.  Beckett tentou chamar Charlie Chaplin para o papel, mas o pedido foi negado. O filme acabou sendo estrelado por Buster Keaton, ícone hollywoodiano da época do cinema mudo.

Yoko libera documentário sobre protesto realizado em 1969 ao lado de Lennon


Bed Peace conta a história do protesto que o casal promoveu na em março de 69, quando ficaram deitados na cama de um hotel durante uma semana, na cidade de Amsterdam, para promover a paz e os métodos não-violentos de protesto. O acontecimento coincide com um dos períodos de maior tensão da Guerra do Vietnam.  Com 70 minutos de duração, o vídeo está disponível para visualização gratuitamente, mas deve ser tirado do ar no dia 21 de agosto. Assista ao filme no final da página, em inglês. Yoko publicou ainda uma carta que explica brevemente suas intenções ao recuperar e divulgar o documentário:
Caros amigos,
Em 1969, John e eu éramos ingênuos o suficiente para pensar que o protesto na cama ajudaria a mudar o mundo.  Bem ele pode ter ajudado. Mas na época, nós não sabíamos.     Porém foi bom que filmamos tudo.    O filme é poderoso hoje.   Tudo que dissemos então poderia ser dito agora.   Na verdade, há coisas que dissemos no filme que podem encorajar e inspirar os ativistas de hoje.   Boa sorte a todos nós.   Lembremos que a GUERRA ACABOU se nos quisermos.   Depende de nós, e mais ninguém. John nos diria isso.  
Com amor, Yoko

   

Jogador contrário ao 'sistema' abandona o futebol aos 24 anos

              Adoraria ver o Ricardo Teixeira e toda cartolagem do futebol brasileiro seguindo o exemplo deste espanhol.   Como isto não vai acontecer.   Rezo, e como rezo, rezo todos os  dias por eles.   Rezo para todos irem juntinhos para os quintos dos infernos. 


    Os hábitos de Javi Poves sempre causaram estranhamento em seus companheiros de clube. Nas concentrações, enquanto todos assistiam TV, jogavam videogame ou navegavam na internet, o jogador do Sporting de Gijón, da Espanha, costumava passar o tempo lendo livros e mais livros. Não era incomum encontrá-lo entretido com obras como O Capital, de Karl Marx.
Poves sempre foi diferente dos colegas, e sua aposentadoria não fugiu à regra: após o final da última temporada, aos 24 anos, no auge do vigor físico, ele decidiu pendurar as chuteiras. Simplesmente porque se cansou do mundo do futebol, de um estilo de vida contrário a tudo em que acredita. Em entrevista ao jornal ABC de Sevilha, o agora ex-jogador disse que quanto mais conhecia o futebol, mais se dava conta de que tudo girava em torno do dinheiro, de que se tratava de algo podre. Por isso desistiu da profissão.
Radicalismo de Javi Poves não está só no discurso Para ele, o futebol exerce um efeito narcotizante sobre a sociedade, fazendo todos se esquecerem dos problemas. Diz que deseja a justiça social e condena o consumismo dos dias atuais. Na verdade, ele vai mais além e se declara "anti-sistema", "anti-tudo": não gosta dos políticos, da direita, da esquerda, não vota.
Quando milhares de espanhóis se reuniram em dezenas de cidades para protestar, às vésperas das eleições parlamentares desse ano, Poves se juntou à multidão que manifestava seu inconformismo com o sistema político na Plaza Mayor de Gijón. No entanto, ele se distancia até do Movimento de Indignados 15 de Maio, como ficou conhecida a mobilização.
"É um movimento criado pelos meios de comunicação para canalizar o mal estar social, para que essa multidão não se torne perigosa e incontrolável para o sistema", declarou Poves ao jornal La Nueva España.
O radicalismo de Poves não está só no discurso. Uma vez, ele pediu que seu salário não fosse transferido em conta corrente porque não queria que o banco utilizasse o dinheiro para especular no mercado financeiro. Outra vez, quando cada jogador do Sporting foi presenteado por uma empresa com um carro zero, recusou. Ele já tinha um, não precisava de outro.
A história de sua saída prematura dos gramados repercutiu fortemente na Espanha, estampando as páginas dos maiores jornais do país. Não porque Poves fosse famoso: era um zagueiro central com passagens pelas categorias de base de Atlético de Madrid, Rayo Vallecano, Las Rozas e Navalcarnero. Sua estreia na primeira divisão do país só aconteceu na última rodada da temporada passada, quando jogou dez minutos contra o Hércules, partida que não valia nada para nenhuma das equipes. Antes, tinha jogado duas temporadas na segunda divisão pelo time B do Sporting de Gijón.
Agora, seu objetivo imediato é cursar a faculdade de história, na qual se matriculou recentemente. Do dinheiro que ganhava, ele jura que não sentirá falta, e diz que gastava muito pouco do polpudo salário que recebia. Para o futuro, diz que espera viajar pelo mundo e conhecer os lugares "de verdade", não mais enfurnado em concentrações.
Li no Jornal do Brasil de  12/08/2011 


O mundo da Mafalda - Silvio Queiroz


                             Não deve ser apenas coincidência que esteja chegando a vez de o mundo ser governado pela geração crescida nos anos 1950 e 1960, quando a Guerra Fria ditava uma cultura em quase tudo bipolar. Tínhamos Estados Unidos e União Soviética, cada qual com sua turma. Tínhamos capital e trabalho, Ocidente e Oriente, Beatles e Rolling Stones, Chico Buarque e Caetano Veloso — sempre para tomar partido de um dos dois. Em outro plano, tínhamos as potências para mandar, no Hemisfério Norte, e os demais países para obedecer, no Hemisfério Sul. A nós, subdesenvolvidos, cabia a parte sombria do noticiário: guerras, guerrilhas, convulsões sociais, tiranias políticas, economias falidas. A eles, o welfare state, a "grande política", a gestão olímpica da economia mundial, aí incluída a ajuda generosa e ocasional aos pobres. Essa hierarquia tão embutida no inconsciente coletivo não escapou ao genial Quino, cartunista argentino que criou a inesquecível Mafalda, menina inquieta, questionadora. Em uma série de tirinhas, ela pôs em prática uma ideia singela para inverter a ordem global: virou de cabeça para baixo o pequeno globo de seu quarto, saída instantânea e criativa para o subdesenvolvimento. Passado meio século, hoje é o Norte que põe o mundo em crise e pede socorro. O Sul segura o crescimento e passa carão aos que ontem ditavam normas de boa conduta financeira. O Brasil, de devedor contumaz, passou a credor do FMI. A explosão de violência em Londres e outras grandes cidades inglesas, nos últimos dias, é talvez um sinal ainda mais eloquente de que o mundo, o mundo real, parece disposto a girar na direção imaginada por Mafalda. Barack Obama não deve ter conhecido as tirinhas de Quino, embora tenha tido seus flertes com a contracultura. Dilma Rousseff, ao contrário, com certeza deve ter encontrado nelas algum refúgio, num tempo em que a situação política do país convidava a calar-se ou rebelar-se, com raros momentos para singeleza. Mas é curioso pensar que o desafio de enxergar o globo por outra perspectiva, em que Norte e Sul não são mais "de cima" e "de baixo", se coloque para gente que era jovem quando o sonho era levar a imaginação ao poder. 

Publicado no Correio Braziliense - 11/08/2011