Cadê meu vizinho paneleiro?

          Onde se meteu o Euclides? Está desaparecido a tempos. Lembrei dele, enquanto tomava uma cerveja no bar do Zanela e a tv falava de mais uma operação policial. Esta, alcunhada de Cui Bono, informava que um certo ex-ministro, aquele mais gordinho o tal Geddel, integrava uma “verdadeira organização criminosa”.  A última vês que estive com Euclides, só ele que falava. E eu já de saco cheio, para não discutir, comecei a cantarolar. Ele perdeu as estribeiras comigo. – Vou te cobrir de porrada, seu comunistinha de merda! Filadaputa!  O homem ficou possesso por causa de um roquinho de nada.
Euclides se encantou com uma turma que adotou a camisa da seleção de futebol como farda, eu continuo firme com a do Galo, até da seleção o galo vingador já ganhou. A turma do Euclides, abandonou o conforto de suas casas e do ar condicionado e foi prá rua. Passei por eles num domingo à tarde na Chácara Dona Catarina, lá perto da Estação. Meio sem jeito e empunhando um cartaz - Fora Dilma!  Ele tentou me arregimentar para a causa.   – Vem com a gente! Estamos na luta contra o roubo e a corrupção da quadrilha dos esquerdopatas.  Olhando para o grupo, onde só se via os bem-de-vida da cidade. Retruquei, – Ôcrides! E você acredita mesmo que tirando presidente resolve tudo! A presidenta não manda merda nenhuma cara.    – Ela até que não rouba, mas é conivente com o roubo. Continuou ele. Antes que o grupo se aproximasse decidi ir. – Tô vazando Ôcrides. Tenho coisas mais importantes para fazer. Tchau!    Cada vez que encontrava com Euclides, ele estava mais cego; grudado no canal de notícias de sua tv por assinatura, dormia tarde. O papo dele encurtou totalmente, só falava de corrupção e a tal da lava-jato. Ele não tinha outro assunto. Tornou-se monocórdio e ninguém aguenta, muito menos eu, gente se repetindo o tempo todo.  E o domingo do impedimento da presidente chegou. 
Até aquele dia Euclides infernizou a rua. Bateu panela noites e mais noites, de sua janela xingava todo mundo que aparecia na sua tv falando contra o impedimento. Ele quase saiu no tapa com um varredor de rua que se atreveu a falar que aquilo era golpe. – Cê não vê televisão não? Seu tapado! Vai ver que cê também é comunista. Reducionista, era desta forma que ele se dirigia a todos que insinuavam desinteresse pelo assunto.  O catador de papel que percorre toda manhã as lixeiras da rua, morre de medo dele. Sai correndo quando o vê. Mas no domingo do impedimento, parecia final de copa do mundo. Ele meteu uma camisa nova da seleção, segundo um linguarudo lá do bar, ele comprou em quatro parcelas lá na loja do Sinval. A cada voto sim, ele soprava a corneta com muito gosto e da janela berrava, – Somos todos Cunha!  O domingo acabou com ele comemorando longe da rua. Foi lá pro centro.   Tornou-se insuportável para a vizinhança. 
As coisas só acalmaram quando o vice assumiu interinamente o cargo. Eu estava no Zanela tomando uma cerveja e ele apareceu. Sentou-se do meu lado no balcão e saiu com esta.    – Aí Zanela, o homem aqui anda amuado. Meteram o pé na bunda da presidanta dele.  Eu tamborilava os dedos no balcão seguindo o ritmo de um samba que tocavam na tv, devagar fui mudando o ritmo e comecei a cantar a música dos Titãs.  ... A Televisão... Me deixou burro... Muito burro demais... Oi! Oi! Oi! ... Agora todas coisas... Que eu penso... Me parecem iguais... ... É que a televisão...  Me deixou burro...  Muito burro demais... E agora eu vivo... Dentro dessa jaula... Junto dos animais...  Oh! Cride, fala pra mãe!...  Que tudo que a antena captar... Meu coração captura...   Alguns fregueses que já estavam na bronca com ele embarcaram na provocação e passaram repetir.  Oh! Cride, fala pra mãe! ... A Televisão... Me deixou burro... Muito burro demais.  Se não fosse o Zanela, a turma do deixa-disso e dois gatos pingados que tomaram partido de mim. Eu tinha apanhado feio, tal era a raiva em que ele estava.
Durante um tempo cada vez que eu chegava no bar, o Zanela me resenhava o tanto de bate-boca que rolava entre as correntes políticas que frequentavam o bar. – Oh! Este negócio do Oh! Cride! Pegou em! O homem está uma arara contigo. – Mas ele não é tucano?  Retruca interrogativo Pelezinho, um dos dois que tomara partido de mim no dia da confusão. E Pelezinho me pergunta de onde os caras da banda de rock tiraram esta letra maluca. Explico a ele que: Oh! Cride, fala pra mãe!  Era um bordão usado pelo humorista Ronald Golias.  E a vida seguiu. Nunca mais vi Euclides. Até a noite em que o ano já tinha virado e a máquina de fazer burros, falava na tal operação Cui Bono. Aí me deram conta que o meu vizinho Euclides, andava meio catatônico, tomando cartelas e mais cartelas de remédios contra a depressão. Para a turma que se arvorava em paladinos da ética, deve ser duro ter que fazer olhos de mercador para quem anda dando as cartas no poder em Brasília.       
A mídia, que até outro dia batia bumbo junto com a febre amarela que tomara as ruas, está dopada. O povo tinha um caráter cristão que foi atirado para o alto. Nem a erupção da barbárie, o banho de sangue e as degolas nos presídios, não desperta compaixão. Ver um membro do governo aplaudir matança é cruel.  É inaceitável Euclides! Largue seus antidepressivos e vem ver o trem sem rumo em que sua panela nos meteu.


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