Visto para padre italiano

                                         Trinta e um anos depois de ser expulso do país, o padre Vito Miracapillo conseguiu o direito de permanência no Brasil. A decisão da Secretaria Nacional de Justiça de conceder o visto foi publicada ontem no Diário Oficial da União e comemorada pelo sacerdote, que está na Itália. Vito foi expulso em 1980, por ter se negado a celebrar uma missa comemorativa da Semana da Pátria durante o regime militar. Agora, ele já prepara o retorno definitivo para o município de Ribeirão, na Zona da Mata pernambucana.
                "Vito era o último exilado estrangeiro no exterior. Esse foi um ato de reparação, porque ele foi vítima de um ato arbitrário e de violência do regime militar", afirma o advogado do religioso, Pedro Eurico. Segundo ele, Vito recebeu a notícia com muita emoção e já entrou em contato com o bispo da Diocese de Andria, na Itália, à qual é vinculado.
               O ato de expulsão foi revogado em 1993 pelo então presidente Itamar Franco. No entanto, ele não conseguiu reaver o visto permanente. Entrava no Brasil como turista e tinha permanência máxima permitida de 90 dias. Em todos esses anos, Vito manteve o contato com os moradores da Zona da Mata pernambucana e com os movimentos sociais da região, que ajudou a organizar. Ele quer voltar e continuar o trabalho interrompido na região.
 
Correio Braziliense - 22/11/2011


Guerra e Paz - Um monumento de ficção e história

          Rubens Figueiredo é o tradutor da primeira tradução de Guerra e Paz feita no Brasil, diretamente do russo. Sai numa edição de 7 mil exemplares, em dois volumes com 2536 páginas, capa de tecido, miolo em papel-bíblia e projeto gráfico especial. Mapas, verbetes sobres personagens e fatos históricos que aparecem na obra e sugestões de leituras completam a edição. 

Leiam um trecho de Guerra e Paz


Anna Pávlovna, em seu salão de visitas, aproximava-se de um círculo que emudecera ou que falava em excesso e com uma palavra ou uma troca de posições restabelecia mais uma vez a decorosa e regular máquina da conversação.  Mas, em meio a tais cuidados, via-se nela o tempo todo um medo especial em relação a Pierre (...).
Para Pierre, educado no exterior, aquela noite em casa de Anna Pávlovna era a primeira reunião social à qual participava na Rússia. Sabia que ali se achava reunida toda aintelligentsia de Petersburgo e, como uma criança numa loja de brinquedos, não sabia o que escolher. O tempo todo receava deixar escapar as conversas inteligentes que aí poderia escutar. Olhando para as expressões compenetradas e elegantes dos rostos ali reunidos, esperava a  todo momento qualquer coisa de especialmente sábio. Por fim, aproximou-se de Morio. A conversa lhe pareceu interessante e ali Pierre se deteve, esperando uma oportunidade para expressar seus pensamentos, como os jovens gostam de fazer."
***
"A princesa Hélène sorriu; levantou-se com o mesmo sorriso imutável de uma mulher bela em tudo, com o qual havia entrado no salão. Com um leve rumor do vestido branco de baile enfeitado com hera e musgo, e radiante com a brancura dos ombros, o lustro dos cabelos e dos brilhantes, ela passou em linha reta no meio dos homens, que lhe abriram caminho, sem olhar para ninguém, mas sem parar de sorrir e como que concedendo amavelmente a todos o direito de admirar a beleza do seu talhe, dos ombros fartos, do peito e das costas muito descobertos, como então era moda, e, parecendo levar consigo o brilho do baile, aproximou-se de Anna Pávlovna. Hélène era tão bonita que não só não se percebia nela o menor traço de coquetismo como, ao contrário, ela parecia ter vergonha de sua beleza incontestável que produzia um efeito forte e triunfante demais."

Guerra e Paz, de Liev Tolstói. Tradução de Rubens Figueiredo (Cosac Naify)

Marilyn Monroe em novo filme - Agora incorporada por Michelle Williams

Michelle Williams é a atriz que estrela o ícone no filme Minha Semana com Marilyn - baseado no livro de Colin Clark, de mesmo nome -, que estreia nos cinemas dos EUA em 23 de novembro.
O filme relata a experiência do autor de passar uma semana com Marilyn em 1956, enquanto ela estava na Inglaterra filmando a comédia romântica O Príncipe Encantado, contracenando com Laurence Olivier.

Antecedentes criminais da literatura

Julio José Ordovás



          Nem todos os escritores são servidores em ternos cinza, chatos ou até mesmo cidadãos exemplares que ousaram transgredir as leis da gramática.  Alguns viveram na marginalidade e sobreviveram para nos contar.   José Ovejero (Madrid, 1958) tem pesquisado a periferia da história da literatura, através de arquivos de jornais e bibliotecas para encontrar pistas psicológicas ou sociológicas, detalhes que podem ajudar a esclarecer, mas nunca completamente, o enigma por trás de cada comportamento.  Investigando inocentemente, só queria seguir criminosos em seus traços de tinta e, ocasionalmente, o sangue em seus passos. José Ovejero não pretende fazer justiça, literária ou outra qualquer. Com o olhar e o faro de detetive, qualidades que não devem faltar ao bom biógrafo, investiga casos de pessoas que uma vez ou outra em suas vidas estavam na prisão e, se a fortuna sorriu, encontrou a redenção na literatura e através dela, integração na sociedade. Não existe um perfil comum do escritor infrator. Villon, príncipe dos malditos, cantou suas misérias e fez brilhar sua pobreza antes de sumir do mapa.  Juliet Hulme conseguiu escapar de si mesma e encontrar refúgio no pseudônimo de uma autora de best sellers. O extravagante Karl May foi condenado por seu narcisismo. Jean Ray usou de todos os tipos de disfarces para fazer-se passa pelo delinquente, que nunca foi. O autodestrutivo Burroughs chegou a soprar 83 velinhas no bolo de aniversário. Cassady só escreveu cartas, mas ele era a alma e motor da literatura da descontrolada geração beat. Maurice Sachs fez da impostura uma arte, mas seus encantamentos não o livraram de um tiro no pescoço. María Carolina Bombal e María Luisa Geel e não hesitaram em apertar o gatilho contra a causa de seus desequilíbrios emocionais e mentais. Jean Genet santificou seu caminho de perdição. Ladrões, bandidos, assassinos, vigaristas, os sobreviventes...  José Ovejero revisa suas histórias criminais e bibliográficas contrastando as páginas que escreveram com os crimes e delitos que cometeram para desmontar suas mistificações, porem deixando ao leitor, em última instância, que os absolva ou não. Dá o que pensar coisas como a literatura serviu para alguns deles ver suas sentenças reduzidas, e que depois de terem sido salvos da prisão, apodrecerem no esquecimento.

Publicado originalmente em El País