O Haiti e suas desgraças

O Haiti, que significa Terra montanhosa é a parte da ilha de São Domingos que os espanhóis cederam aos franceses no final do século 17, um século depois tinham varrido dali toda população indígena, substituídos por meio milhão de escravos negros entre traficados e nascidos no cativeiro. Animado com a Revolução Francesa o negro Vincent Ogé liderou uma rebelião contra os franceses, foi preso, torturado e executado, a liberdade, a igualdade e a fraternidade da revolução só valia para os brancos da elegante Paris, mesmo assim lutaram e criaram a primeira república negra do mundo. O preço desta ousadia? Pagam até hoje. Cercados de escravocratas por todos os lados do recém independente Estados Unidos e todas as colônias das três Américas. A libertação dos haitianos nunca aconteceu de fato, não há no mundo população que sofra tanto quanto a do Haiti. Vítima de uma elite estúpida - sempre apoiada pelos de fora - que pariu entre outras porcarias o brutamonte e demente Papa Doc que com seus tontons macoutes, contribuiu mais ainda para levar 80 por cento de sua população à indigência. É um povo que além de tudo isto ainda sofre com as enchentes como as de 2004 os furacões de 2008 e um terremoto das proporções deste ano. É muita desgraça para um povo só.
Agora em que o sangue de brasileiros, juntou-se ao deles e, correu regando o chão seco do Haiti. Devemos exigir do mundo ocidental, a reparação histórica a este povo que foi arrancado de sua África natal pelos europeus, mantido escravo após o genocídio dos indígenas. Povo, cuja abolição também foi uma mentira, submetido a toda sorte de opressão tirânica, a governos dóceis, mas sempre controlado por países estrangeiros. Em nome de qualquer fiapo de respeito ao ser humano e à democracia devemos cobrar e exigir dos grandes responsáveis por todas as mazelas daquele povo não apenas mais mea-culpa, mas a devolução daquilo tudo que usurparam.

Catorze gols e uma costela quebrada

Eu e meu amigo Emerson Teixeira, agora nos nossos cinqüentas, de uns tempos para cá, retomamos um hábito lá da adolescência, sentarmos nos bancos da praça do baiano Rui Barbosa. Hoje o fazemos nas manhãs de domingo, já que no sábado, ela torna-se um verdadeiro mercadinho persa. Vendem-se de um tudo, barganha-se de relógios usados à salvação na vida eterna. Entre uma conversa e outra vão desfilando pela praça alguns amigos que eram habitués lá nos bons tempos dos Cines Edgard e Machado.
Zeca Junqueira sempre surge vindo lá da Rua do Sobe-desce acompanhado da Márcia. Pega o jornal lá na banca, junta-se a nós em nossas indignações com o empobrecimento acelerado da alma de Cataguases. Indignamo-nos com o mal-caratismo de nossos gestores, aliás, por aqui como em todo o país não se discute política, a discussão é rasa, idiota e burra, pois só se trava debates eleitorais. Deitamos falação nestes imbecis travestidos de doutores, até que o Emerson nos lembra da cerveja que nos espera e a Márcia nos chama à moderação.
Dounê é outro que, quando não está no Rio, nos brinda com seu humor refinado, impagáveis trocadilhos e seus belos aforismos, alguns até em latim. Amigo que é do Ziraldo dia destes conversava com o Zeca sobre a cor do cartunista. Zeca afirmava que o nosso cartunista estava ficando preto. Parece que o homem esta fazendo o caminho contrário do Maicon Jequison. A que Dounê prontamente retrucou – Não! Ele está é roxo.
Às vezes alguém exorbita um pouco. O Hulqui, por exemplo, transformou a Copasa em seu moinho de vento, feito o Don Quixote de capacete e armadura, desfecha seus golpes de lança na indigitada empresa. Num ponto ele tem razão, ela se apropriou de nossas águas. Agora para cuidar dos esgotos, quer meter a mão em nossos bolsos, antes de tratar sequer uma gota do estrume.
Noutra ocasião certo cidadão ocupou quase a manhã inteira, a nos contar suas vitórias e fracassos em um projeto suíno que tocou lá pros lados de Itamarati. Imaginem que o senhor nos perguntou quantas maminhas tinha uma porca. De porco, entendemos mais ou menos é de um naco de presunto, uma linguiça frita, um lombinho assado e um torresmo com mandioca, já peitinhos de leitoa... Não temos a menor intimidade. O ex-suinocultor falou tanto de porcos que nós quase saímos dali doutores em porcaria.
Em um destes domingos, foi naquele em que ninguém comemorou os 120 anos da proclamação da Republica, só o Vanderlei Pequeno lembrou-se disto. Quem nos brindou com suas provocações e hilárias estórias foi o Henrique Frade. Dono de uma língua ferina, sempre que encontra com o Emerson tem que provocá-lo: Toquinho! Não sei de onde você tirou esta de que é goleiro. Até hoje só achei fotografias é do Pequeno como goleiro do Flamenguim. Você nunca foi goleiro. Acho que vocês poetas gostam é de tirar onda. Imagine que o Ronaldo Werneck também é metido a goleiro. Cata a maior marra. Diz que foi goleiro do Operário. Uma vez fomos, eu e o Ronaldo, jogar lá no campo do Politeama, aquele time do Chico Buarque. Foi um vexame só. O Ronaldo após tomar uma porrada de gols, ter brigado com todo o nosso time, foi fazer “uma ponte”, daquelas que o Mané Bunitim era mestre, a bola entrou na gaveta e ele se esborrachou no chão. Levantou cuspindo maribondos, ficou de mal com todo mundo. Também pudera acabara de tomar o gol de número quatorze. Isto mesmo, tomou quatorze gols e ainda saiu com uma costela quebrada.